Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poema com som de azul



Sou o azul da cidade, você fumaça do pesar
Sou azul a deslizar, você ausência extrema
Sou azul da sala, você nascível laço
Somos seres azuis?

Você, ser hexagonal, sou solidão sonora
Você, santo César. Sou sacrifício azteca
Você, semente do ser. Sou a caça da savana
Somos um sonho azul impossível?

Sou azul de você
Você azul do ser exilado
Sou azul da casa azul
Você o azul da cidade
Sou o azul do zócalo
Você azul da nossa existência
Sou azul da saudade
Somos seres azuis.

Thais Petranski

domingo, 23 de dezembro de 2012

A grande fábrica de mentiras do Natal



Ainda lembro-me dos Natais de minha infância, onde a magia realmente existia nas cartinhas escritas ao papai Noel e nos presentes que surgiam ao lado das nossas camas na manhã do sai 25 de dezembro. Cheiro de boneca nova, da Laranjinha que não foi encontrada, da cascata do Pônei e do berçário do baby Pônei. Lembro claramente da manhã que encontrei uma caixa vermelha que continha o que eu queria: a ambulância do Dr. Saratudo. Essa lembrança voltou exatamente na semana em que vendi a ambulância que guardei por mais de 25 anos. Não havia mais espaço para a caixa vermelha em meu armário, nem utilidade para mim, só recordações de um tempo em que o espírito natalino existia, muito provavelmente, nutrido pelo consumismo, mas era bem divertido.

Num dos Natais seguintes, tive que ser muito forte e determinada quando deixei minha chupeta rosa transparente na árvore de Natal para o Papai Noel levá-la. Cheguei a combinar com meu pai que se eu a deixasse lá, ele pararia de fumar. Deixei o meu tão adorado vício naquela noite, mas meu pai ainda fuma cerca de três maços por dia. Não foi um bom acordo, é verdade.

Pouco tempo depois daquele Natal, descobri que tudo era uma grande mentira usada para chantagear as crianças, as “obrigando” a serem boazinhas em troca de presentes vindos do Pólo Norte. Foi uma decepção tão grande que hoje tenho pena das crianças que continuam sendo enganadas. É muito triste um adulto inteligente mentir descaradamente, mais ainda quando há crianças envolvidas.

A magia que existiu foi uma mentira contada coletivamente, que até hoje usa a inocência infantil para mover o mundo capitalista induzindo pessoas ao consumo desenfreado. Meu primeiro vício não prejudicou ninguém, nem entortou meus dentes. O abandonei com quase 7 anos e tenho tanta saudade daquele cheiro de borracha nova e da sensação que me proporcionava. Aquilo sim foi verdade. Uma verdade que acabou em um Natal infeliz.

Saudade da minha chupeta :(.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Quem planta estrelismo colhe flash

Quando o assunto são ações voluntárias, é necessário que as ações sejam sustentadas pela consciência social e nunca pela satisfação do ego, segundo a análise psicanalítica da Dra. Rachele Ferrari, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.
A psicanalista esclarece: "Parece que há que se ter uma especial atenção aos trabalhos dos voluntários que se propõe a uma ação cuidadora, diretamente com outro ser humano, isto porque as motivações inconscientes podem tanto indicar um genuíno interesse em CONTRIBUIR COM O OUTRO, como podem apontar para o uso do outro, para atender às suas próprias questões psíquicas mal ou insuficientemente resolvidas (uma forte carência, uma imperiosa necessidade de reconhecimento social, um afã de salvar o mundo a qualquer custo, certezas absolutas sobre o melhor modo de vida para o outro, etc). Neste último caso, está claro que a ação voluntária, teoricamente tão benevolente, não teria praticamente nada de útil para que a recebe." (Revista Terceira Civilização - outubro 2012 - nº530)

O texto acima caiu como uma luva aos meus olhos, que nos últimos meses  estão presenciando atos grotescos em nome da pobreza alheia. Pessoas que se dizem cheias de amigos ricos e famosos, que participam de um circo entre outros que se acham melhores que o resto da humanidade, por terem ou almejarem dinheiro.
Eventos "beneficentes" com custos altíssimos, onde os maiores beneficiados são os estômagos dos "famosos" que colhem os flashs que plantaram com seu estrelismo, e não com a real vontade de ajudar o próximo.
Altruísmo é uma palavra sem significado para os "bem relacionados"?
O ato solidário não está na quantidade de brinquedos doados no Natal, está  no coração puro que doa algo que se daria para o próprio filho, não é esmola.
Adianta cobrar convite de voluntários quando se é amigo do marido de uma das pessoas mais ricas do mundo? Pobreza de espírito, mediocridade, hipocrisia, futilidade, estado de fome, onde a eterna vontade de querer se sobressair mata toda a benevolência escondida no peito.
Deveria ser crime usar o nome de crianças carentes ( "menos privilegiadas" para alguns) para tentar ganhar fama. Tanto falam na vontade de Deus, mas se esquecem que são o instrumento Daquele que tanto falam.
A lei de causa e efeito é para todos. Quem planta egoismo vai colher o que mesmo?
 O mais irônico é que eu, assim como toda minha família, ajudamos, adotamos e apadrinhamos todos os anos animais abandonados. Cachorros e gatos atropelados, sem patas, mal tratados que não têm amigos famosos para lotar um evento em prol de um pouco de qualidade de vida a eles.
Fazer o bem, é fazer sem querer retorno. Muito menos retorno financeiro.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Talento ou utopia?



Ando analisando muito as causas que crio e o que recebo como efeito dessas ações. Muito já ouvi sobre os resultados atuais serem os efeitos de ações passadas e se algo não está bem hoje devo modificar minhas ações.
Descobrir o que fazemos de errado é uma tarefa árdua! Mas, tentar seguir por novos caminhos é uma possibilidade interessante. O problema é quando tudo parece estar congelado, exceto as contas a pagar.
Querer que meus livros sejam comprados, lidos e recomendados, às vezes parece tarefa impossível, assim como encontrar um “emprego feliz e bem remunerado”. Formada, pós graduada, inteligente, criativa e desempregada, essa é a realidade de tantas pessoas que assim como eu se sentem bem inúteis na sociedade, mesmo após se esforçarem bastante.
É bom saber que somos capazes de muito mais e é péssimo não termos nossos talentos bem utilizados.
Tem dia que sinto raiva, que me sinto cansada, muito empolgada, cadastrando mil curriculums, mas, tudo caminha lentamente.
Às vezes penso que deveria trabalhar com algo que simplesmente pague minhas contas, assim como tantos trabalhadores o fazem, mas quero um emprego feliz.
Ou seriam essas palavras totalmente opostas?
Haja imaginação para agir de maneiras diferentes todos os dias, buscando algo tão necessário, modificando ações para obter um ótimo resultado.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Indiferença crônica, uma doença degenerativa


O assunto de hoje, dentre os tantos que foram cogitados, não agradará a todos, isso é bem verdade, mas aqui estará. A palavra que se destaca hoje é “indiferença”.

indiferença
s. f.
1. Qualidade daquele ou daquilo que é indiferente.
2. Falta de cuidado, de zelo.
3. Apatia.
4. Desprezo.
5. Negligência.
6. Estado de uma pessoa a quem tão pouco importa uma coisa como o contrário dela.
7. Frieza; insensibilidade.

Uma palavrinha que sempre evitamos, mas que diariamente “praticamos”. Somos indiferentes com problema do outro, com mendigo na rua, com os vizinhos e até mesmo com as pessoas que vivem conosco. A indiferença não é mérito apenas dos afortunados pela vida, é uma realidade de todos os seres humanos.

Os motivos de sermos indiferentes são os mais variados, desde uma discussão, uma raiva passageira, até uma puxada de tapete (isso para não dizer traição, que pode parecer muito forte para os olhos que lerão estas linhas). Mas como evitar ser indiferente e como conviver com a indiferença? Eu não tenho a resposta, mas gostaria muito de saber. O pior é quando a indiferença surge de uma cegueira. A cegueira por opção, que já falei por aqui, que ocorre quando uma ou mais pessoas preferem negligenciar uma das partes de uma discussão, por exemplo, afirmando que o outro estava em seu direito mesmo cometendo uma injustiça. Semana passada, colocaram fogo em um carro alegórico porque uma torcida estava revoltada e agiu “sem pensar” (como se alguém que sai com um coquetel molotov estivesse cheio de boas intenções). Assim como esse caso citado, a indiferença atinge principalmente quem foi prejudicado. Alguém quer saber o que passará com quem teve o prejuízo e que acabou agredido? Poucos.

Indiferença é prima do preconceito, machuca da mesma maneira, só que é muda. Ao contrário dos que calam por sabedoria e que são chamados de covardes, os que falam e se defendem de calúnias e difamações também sofrem por sua agressividade ao se defenderem. Sós. Estão sempre sozinhos. A indiferença faz isso. Presenteia os “covardes” ou os que não toleram injustiça com apatia. E sozinhos, chegam a conclusão de que existem Judas em cada metro quadrado do mundo. A única coisa que pode fazer a diferença para quem sofreu com a indiferença, é ter a certeza de que seus valores, atos e palavras possam mostrar um objetivo maior, e que deixem claro toda ação errada gera uma reação errada. Mesmo que quase ninguém se importe que quem cometeu o erro mais grave tenha sido o beneficiado da história.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Em nome de...



Todo dia uma surpresa atinge nossas cabeças (olhos e ouvidos também). Geralmente são notícias impensadas, inimagináveis, mas, uma vez aqui, deveríamos estar preparados para tudo. Deveríamos.
A surpresa dos últimos dias é sobre falar.
É curiosíssimo pessoas que falam em nome de alguém, sem que esse alguém saiba. Colocam palavras e exclamações em suas bocas. Fazem convites, respondem pelo outro e sustentam essas mentiras com o aval de outros comparsas. Sim, porque quem assina embaixo do que malandro fala é safado também. Lembra daquela frase que vovó já dizia: Diga-me com quem andas que te direi quem és? Pois então, nada mais verdadeiro. E não tem essa de julgar sem saber. Falar ao mundo em nome de outro e enganar pessoas não é um ato de amor. Um dos mais baixos níveis da estupidez humana.
Há pessoas que gostam de enganar, outras que querem ser enganadas. Há um pouco de tudo nesse mundo mesmo.
 Há também os que falam o que pensam e são quase linchados. Você já parou para pensar no fato de que simplesmente existem coisas a se dizer que não soam bem mesmo sendo ditas por uma princesa? Falar de maneira bonita algo que defina seu nojo não existe.  Como adoro exemplos, lá vai um:
“Aquele senhor cuspiu uma coisa verde” é o mesmo que “o cara escarrou o pulmão!”. É a mesma cena que virá na mente de quem ouve! Ou então: “aquele ser humano tirou a vida daquela pessoa e a desmembrou” é o mesmo que “o cara matou e estraçalhou a mulher”. O que vem à mente é o mesmo, independentemente de como se fale.
Claro, existem grosserias desnecessárias e gírias incompreensíveis. Mas todos têm seu dia de sinceridade à flor da pele.
Mais importante que falar é assumir o que se disse. E justamente nesse momento, surgem profissionais que são taxados de podridão pelos mais inescrupulosos: os advogados.
Diga o que disser, tenha sempre em mente que um advogado pode mostrar publicamente sua mentira tosca. Quer mentir? Ok! Você é livre para isso, mas não se esqueça de que toda causa tem seu efeito. Tão certo quanto dois e dois são quatro.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012



Tudo bem, eu gosto de insetos. Não todos. Não gosto de pernilongos e são esses os maiores freqüentadores de casa.

Gosto de formigas, borboletas, joaninhas, vaga-lumes, abelhas, besouros, libélulas, moscas douradas e uns tantos mais.

Barata? Não tenho medo (desde que ela não apareça voando), tenho sim um nojinho se ela estiver muito próxima a mim. Ai as baratas...

Tanto não tenho medo que logo o meu primeiro livro infantil publicado se chama “Catarina e as baratinhas”. Foi baseado em uma história real e tem ilustrações! Baratas, muitas delas. São simpáticas, usam roupinhas e mais lembram fadinhas das profundezas da terra. Pensando bem, nem tanto.

E por falar nelas, acabo de me lembrar de dois episódios ocorridos em um curto espaço de tempo. Certa vez, estava assistindo uma mini série muito graciosa na TV e todos em casa dormiam, era quase madrugada. Bem compenetrada nas canções senti meu cabelo incomodar meu pescoço, mexi a cabeça e passou. Quinze segundos depois o cabelo incomodou novamente, achei estranho porque não havia vento. E porque raios meu cabelo estava voando no meu ombro? Olhei de relance e lá estavam duas antenas imensas quase cutucando minha orelha, que saiam de um corpo marrom que se equilibrava em perninhas peludas. Uma barata gigante! Dei-lhe um safanão para então gritar com toda a força de meus pulmões:

- AI QUE NOJO!

Quando me dei conta que minha boca estava aberta, tratei de protegê-la com as mãos para que nenhum ser batesse as asas goela adentro e esperneei. Esperneei muito, gritando com a mão na boca. Até minha mãe surgir empunhando uma vassourona para me salvar.

Na primavera seguinte, me arrumava para ir a uma festa. Blusa frente única novinha, calça preta, salto, e cabelo esticado até a cintura pela chapinha que hoje se chama prancha. Linda, maquiada e perfumada. Fui dar a última conferida traseira e notei uma nova tatuagem na omoplata (escápula, asinha ou, seja lá como você conheça aquele ossinho das costas). Mas nunca fiz uma tatoo ali! E novamente aquelas antenas gigantescas suplicavam por atenção. Se eu tivesse gravado os segundos seguintes, estaria hoje com minha cara publicada no Guinnes Book e logo abaixo: Garota que tira a roupa toda em milésimos de segundo. Dessa vez minha salvadora apareceu com um rodo e com o cabo cutucava meus cabelos porque eu tinha certeza que a dita cuja estava lá. Foi a noite do “aiquenojo”, mesmo após água, sabão, bucha e álcool .

Mas comecei esse assunto porque ontem um desses insetos esteve no pote de ração da minha gata. Enquanto minha irmã corria desesperada, fui observar a baratinha e tive uma visão muito...hum, como poderia dizer... diferente? Sim, diferente. A barata pegou com aquelas duas mini patas, que não são patas, que tem ao lado de sua boca (sim! Barata tem boca!) o maior grão de ração e se escondeu para a ceia. Voltei depois de uma hora para espantá-la e pude observá-la destacando seu bronzeado nos azulejos amarelos, ou como diria meu pai “nos amarelolejos”. Vi suas pernas cabeludas e uma bundona que a fazia andar devagar. A deixei caminhar até sumir por uma fenda no chão. Hoje, pesquisando mais a anatomia das baratas na internet, descobri que aquilo não era uma bunda e sim ovos. É, teremos filhotinhos, mas eu não poderia matar uma barata que roubou calmamente a ração da minha gata mais caçadora. Não mesmo!


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Nesse momento


Primeiramente, quero ensinar uma palavra nova: Niji.
No início do capítulo Hoben, do Sutra de Lótus, eis que ela aparece. Significa “nesse momento”, e é desse momento que gostaria de falar.
Tive provas concretas de que nada acontece por acaso, e mais, de que todos entram em nossas vidas por um motivo. Ontem mesmo, durante a reunião, lições importantes foram abordadas. Tais como: não lamentarmos, não nos basearmos no passado, focarmos no agora (niji), podermos mudar o rumo da vida e sermos o exemplo.
Assuntos que temos consciência, mas que não colocamos em prática muitas vezes, porque é difícil mudarmos nossos hábitos. Difícil, porém, essencial.
Diversas vezes ao dia temos a oportunidade de nos desafiarmos, de mudarmos nossa reação para com o mundo e não reagir é muito válido (aprendi recentemente isso, só falta colocar em prática). Conhecemos pessoas novas o tempo todo. Algumas, só permanecem alguns minutos. Outras, segundos apenas, mas estão conosco, mesmo assim. Niji.
Nesse momento, percebo claramente o que significa encontrar pessoas com a mesma “frequência”, os interesses comuns formam grupos seletos de pessoas com a mesma vontade, é aí que tudo pode mudar. Ou melhor, tudo pode acontecer.
Se sozinhos, atraímos nossos semelhantes em frequência, o que poderemos fazer em grupo então?
Nesse momento, sei que a vida de uma pessoa pode ser refletida milhares de vezes, em milhões de rostos, em bilhões de atitudes, diariamente, e que é apenas nesse reflexo que temos que focar.
Quer refletir calma? Seja calmo verdadeiramente.
Quer refletir amor? Ame verdadeiramente.
Reflexos de pensamentos não existem, só de sentimentos verdadeiros.
Coincidentemente, hoje tivemos nossa primeira aula do curso de poesia e todas as pessoas que estavam lá poderiam ser qualquer outra que lá esteve presente. A jornalista que nunca escreveu, o professor que não queria dar aulas, a advogada que queria estar em grupo, a pianista que é professora agora, a perdida no mundo, o louco que fora citado e que foi capaz de aprender. Tantos reflexos de nós mesmos. Muitas possibilidades.
Estas foram algumas das minhas descobertas nestes últimos dias. E espero que todos que leiam este texto, possam refletir um pouquinho sobre o que querem ver refletido por aí.

Segue o início do capítulo Hoben do Sutra de Lótus  e sua tradução.

Niji sesson. Ju sanmai.
Anjo ni ki. Go Sharihotsu.
Sho-bu-ti-e. Jinjin muryo.
Go ti-e mon. Nangue nannyu.
Issai shomon. Hyaku-shi-butsu. Sho-fu-no-ti

Nesse momento, o Buda levantou-se serenamente de sua meditação
e dirigiu-se a Sharihotsu, dizendo: "A sabedoria dos budas é
infinitamente profunda e imensurável. O portal dessa sabedoria
é difícil de compreender e de transpor. Nenhum dos homens de
erudição ou de absorção é capaz de compreendê-la.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Matsuya - comendo um japonês



 O pessoal do meu departamento é festeiro, adora uma comemoração, Aniversário, despedida, férias, tudo merece um almoço especial. Hoje não foi diferente, toda a administração decidiu almoçar no japonês mais próximo da empresa, onde costumamos ir, para celebrar o aniversário de um colega. Dez pessoas divididas em dois carros, sedentas por shoyo, seguiram ao Matsuya Aclimação. Linda a reforma que fizeram, a decoração, tudo diferente desde a última vez que estive lá. Ocupamos três mesas seguidas para deliciar a maravilhosa culinária oriental e o objeto mais parecido com um cardápio que foi disponibilizado, era um displayzinho transparente posto em pé no canto da mesa com fotos dos pratos, algum texto e no final o preço do rodízio:
   Almoço R$ 27,90 por pessoa de segunda a sexta!
   Rodízio é rodízio, então vambora comer galera.
   Quero shimeji, yakisoba! E eu quero um salmão grelhado e uma coca.
   Quero tudo que tiver direito! Disse o outro. Eu pedi um rodízio vegetariano e um suco de laranja.
   Sim, vegetarianos podem comer em qualquer tipo de lugar, uma vez que os restaurantes sabem das diferenças alimentares de seus clientes.  Enquanto todos almoçavam eu esperava o que era meu por direito: tudo que tivesse cogumelo, fruta e verdura! Apareceu um prato de shimeji, que segundo informações fazia parte da entrada. Opa é comigo mesma! Todos devoravam seus sushis, sashimis, tamakis e afins que chegavam lentamente, mas chegavam. Finalmente,  depois de um tempo considerável, eis que surge o tão aguardado prato vegetariano: 5 sushis de morango, 5 de kiwi e 5 de algo parecido com repolho, 1 kiwi cortado e 4 pedaços de abacaxi. Onde estava a fartura de antigamente? E aquela barca de comida? Aquilo era a visão da miséria!
   Tudo que chegou às mesas foi praticamente implorado por quem já conhecia a variedade de pratos que podem ser servidos, mas nenhuma opção foi dada pelos atendentes.  Intrigante essa política de atendimento. Já eram quase três da tarde quando pedimos a conta, e para minha surpresa o valor cobrado pela fartura não carnívora piscava em fonte 24 na comanda: R$ 38,90.
   Não era possível, R$ 11,00 a mais para comer  fruta? Ah, palhaçada. Fui falar com o gerente. Me dirigi ao caixa e esperei que ele cobrasse todos da pequena fila formada. A pressa dele era tanta que não teve tempo para olhar em meus olhos quando falei que em lugar algum estava o valor aterrador que eu via em minha conta. Esse é o preço que cobramos por quem pede qualquer coisa diferente do que costumamos servir, não posso fazer nada. Ok, quero falar com o gerente. Ele não se encontra. Que bom! Mas eu me recuso a pagar esse valor, estou com mais  nove pessoas e é ridícula essa quantia pelo mal atendimento que tive. Não quer pagar não paga.
   Dessa maneira,  meu questionamento foi abolido. Eu queria pagar o que todos pagariam, mas que por algum motivo surreal alguém decidiu que era pouco.
   O sangue com shoyo subiu, e saí de perto daquele exemplo de bom atendimento, para me sentar  no sofá de espera enquanto os demais passavam seus cartões. Olhares estranhos, um clima pesado e pouco depois soube que uma atendente ria com outros clientes questionando o que um vegetariano fazia naquele lugar, cheia de preconceito estúpido discriminando um cliente. Que porcaria de lugar era aquele? Não como animais, só isso, eu não vim de Júpiter cacete!!!



Em paz com o sabático



Esta semana li algo bem intrigante sobre o sabático.  Sabático vem de “shabat” que é o sábado, ou dia de descanso para os judeus. Esse termo é usado para definir períodos de afastamento de uma empresa. É um período para parar e refletir, pensar, descansar, curtir, olhar as coisas sob outra perspectiva e dimensão.  Avaliar o que sou e o que eu posso ser. Criar uma nova condição para o equilíbrio mental, físico e espiritual. Coragem para perceber o novo.
Eu descobri que isso existe há apenas quatro dias, justamente nos classificados de emprego da Folha de SP.
O texto começa da seguinte maneira:

“Se ainda não aconteceu com você, talvez seja apenas uma questão de tempo. Porque em algum momento da carreira o dilema se impõe à maioria: já é hora de tirar um período sabático?”.

Na sequencia, falam com a maior naturalidade que esse período deve ser usado para agregar conhecimento e para aumentar a empregabilidade, e esse tempo varia de um mês a alguns anos. A questão é planejar e fazer um bom pé de meia para sobreviver nesse meio tempo. Super simples assim.
Ainda há exemplos e dicas, tais como, negociar com o chefe se pode ser uma licença não remunerada ou avaliar se a demissão é viável. Sugestões: aprender um idioma durante o sabático, estudar, escrever um livro, aprender algo diferente, fazer um retiro espiritual. E finalizam com:
 “O MERCADO VÊ DE FORMA POSITIVA OS PROFISSIONAIS QUE TIRAM UM SABÁTICO PLANEJADO E COM FOCO. As empresas querem pessoas com iniciativa, que gostam de aventura e de assumir riscos. O MERCADO TAMBÉM, É RECEPTIVO A PROFISSIONAIS QUE LARGAM TUDO EM BUSCA DE AUTOCONHECIMENTO”.
Agora eu pergunto: Em que mundo isso acontece?
Vivemos numa época em que um funcionário que tira férias por 30 dias, no fundo não é importante pra empresa, porque se ele pode se ausentar por “tanto tempo” é bem substituível por alguém que “realmente vista a camisa de empresa”.
Como trazer o texto do tal sabático para a realidade?
Esse tema me chamou muito a atenção porque passei por isso. Tive pequenas licenças não remuneradas para evoluir e buscar realizações. Acabei abandonando tudo em busca desse autoconhecimento (que deveria conviver diariamente conosco).
 O meu saldo do sabático é:
- Pós graduação em Gestão Estratégica do Conhecimento e Inovação;
- Espanhol fluente;
- Três livros escritos, dois publicados;
- Algumas viagens;
- Cursos de desenho e ilustração;
- Vontade de estudar mais para mudar de área;
- Desemprego.

Claro que só porque para mim isso não funcionou, não significa que é uma furada. Acredito que seja essencial na carreira das pessoas, mas daí até o mercado valorizar isso, já é demais.
Mesmo na Era do Conhecimento, as empresas visam lucro, e precisam de funcionários dedicados. Como fingir que isso não é importante?
Acredito que é importantíssimo para uma empresa incentivar alguns pontos na carreira de seus funcionários, para que estes realmente vistam a camisa, mas, e se todos os funcionários de uma grande empresa decidissem tirar um sabático? Por ano, quantos funcionários se ausentariam de suas tarefas?
A realidade é que pobre se tira férias fica endividado e, se inventa um sabático é vagabundo. Quando tem emprego é pra pagar as contas e não pra um fundo de reserva. A vida não permite isso. Assim como estudar em período integral.
Sou apenas mais um exemplo de como a vida funciona fora do jornal. Tenho sonhos, assim como todos, mas daí a realizar tudo, existe um abismo chamado realidade.

(E não custa nada perguntar né? Se alguém conhecer alguma empresa que valorize e ponha em prática esse tal de sabático, me avisem, por favor. Vai que uma dessas empresas se interessem por uma pobre sabática por imposição, sonhadora e realizadora por opção.)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

De ti


Se mente rio
Se ri somente minto
Sinto o riso
Na mente
Presente
De ti
Mente só
Menta
Que arde sem ti
Te espero
Somente
Semente.

Thais Petranski

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sem título, sem palavras, ops, algumas...


Dizem que não há nada original, que tudo já foi feito, pensado e dito, e às vezes tenho certeza disso. Poderia passar horas e horas falando sobre as mesmices da vida, o que até poderia entretê-los um pouco mais, mas o que quero dizer, adivinhem??? Já foi dito! E para não cair na tentação de reescrever com outras palavras, deixo aqui a frase original de um dos homens mais geniais que passou por esse mundo: Fernando Pessoa.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Não é preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Relógio biológico falsificado



Hora de dormir me dá fome.
Hora de acordar me dá sono.
Hora de comer tenho preguiça.
E depois da preguiça vem o sono.
Esse é o meu relógio biológico: um pouco desgovernado.
Talvez falsificado, isso sim, mas é com ele que convivo. Há noites em que o sono é certo lá pelas 23:00, mas viro pra lá e pra cá, penso nas contas, lembro de piadas e tenho crises de riso. Lá pelas 02:00 a piada perde a graça e já me cansei de tanto tentar dormir. E é justamente nessa hora em que apago.

Sonho que estou flutuando, ou que bato “os braços” para voar mais alto. Algumas vezes consigo nadar no ar! Muito relaxante!

De repente ouço as rodinhas passarem, então já sei: são seis horas, os garis estão passando. Começo então a filosofar. E questiono o por quê de rodinhas tão barulhentas. Mas eles estão trabalhando, não posso reclamar. Aí penso na hora que eles saíram de casa, no café que devem ter tomado na rua e no pão na chapa que comeram. Mas será que já comeram? Até que horas eles trabalham?

Volto a dormir, na esperança de descansar um pouquinho mais. Engano meu, porque alguns sonhos são tão complexos que me fazem acordar mais cansada. Esses dias, fui dormir com tanta fome (porque não tive coragem de ir até a cozinha tão tarde) que sonhei com um hamburger muito suculento. Mas eu estava tão ocupada no sonho que tive que guardá-lo na mochila. Quando finalmente sentei para comê-lo, veio a surpresa: ele não estava na mochila.

Nem no sonho saciei minha fome.

Mas tudo bem, adiantarei esse meu relógio paraguaio para não passar por tantas confusões. Nem acordada e muito menos “dormida”.