Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo." - Pablo Neruda

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mudança e bagunça

Quarto desfeito. Entenda o verbo "desfazer" como tirar toda a personalidade do ambiente. O recanto sagrado de sua hospede. O mural de fotos presas com ímãs, as montagens, as palavras que compunham frases coloridas, tudo está encaixotado para a mudança. A coleção de São Francisco iniciada há 8 anos, na mesma época em que se tornou vegetariana, agora descansa em um baú. Os quadros, o calendário asteca, o filtro de sonhos, as lembranças trazidas de longe. Tudo guardado.
Mudanças geralmente são caóticas e estressantes. Caixa aqui e acolá, poeira, bagunça. Olha só o que acabo de achar: uma peça azul daquele quebra cabeças que nem sei onde está! Parece que todos os objetos perdidos nos últimos anos resolvem aparecer no meio dessa loucura. O papelzinho com a sorte escrita, a velha sorte que já passou, mas o papel acaba de ressurgir. Até a pena de um passarinho resgatado na rua e que aqui viveu por uma semana resolver dar as caras!
Olhando as paredes brancas já manchadas pelo tempo, tenta reconhecer a identidade do quarto, que mesmo despido a mantém. Cadê o grampo que estava aqui? Aqui..qui...i...i...i. Precisamos falar baixo porque o eco já está instalado!
O questionamento inevitável: por quê ainda tenho isto? Boa pergunta! Mas conseguirá conviver com essa roupa velha que não usa há uns 3 anos depois da mudança? Essa é a hora perfeita para renovar, decidir o que vai ficar e o que desaparecerá do novo ambiente.
Mesmo que a mudança seja só da cor das paredes, pouca coisa será como hoje pela manhã. Posições invertidas e objetos novos. Tudo para combinar com a transformação pessoal. Vão-se os cacarecos, ficam as paredes (o dito poderia ser esse também).
Mudar é bom, mas dá um medinho. Alguém ainda duvida do poder da mudança, ainda que seja a da cor das paredes?

Um comentário:

  1. As mudanças sempre me dão -um que- de medo. Mesmo que venham com manual de instruções, fartamente ilustrado, smepre haverá a novidade. Situações pelas quais não se havia passado antes ou que já esquecemos.
    E aquilo que desmontamos para aceitar a mudança? Não cabe mais, aparecem o papel da sorte, a peça azul, a pena.
    Vão-se os cacarecos... ficam as paredes.
    Mudei também... mudo todo dia.
    Gostei.

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