Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

terça-feira, 31 de maio de 2011

No fundo, todo mundo é igual?



Sobre o peso dos meus amores
Eu vejo a distância
Eu vejo os perigos
Eu vejo os outros gritando
Eu vejo um
Eu vejo o outro
Não sei qual amo mais
Sob o peso dos meus amores
Leonilson, 1990.


Ando um pouco perturbada desde domingo, quando visitei a exposição do artista José Leonilson, chamada "Sob o peso dos meus amores", no Itaú Cultural.
Mais específicamente após ler o seguinte texto dos curadores Bitu Cassundé e Ricardo Resende:

"A obra do artista José Leonilson é repleta de índices taxonômicos: listas, números, coleções, símbolos, repetições. Seu legado constitui um grande arquivo, impregnado de memórias, classificações, vida e transposições. Esses arquivos de referências pessoais são compostos de materiais recolhidos do cotidiano, como tíquete de viagens, entradas de cinema, matérias de jornal e revista com informações pessoais, de amigos ou de sua obra, programações das exposições, fotos, contas, endereços, telefones, cartões, relatos de viagem, uma refinada escrita poética, esboços de trabalhos e demais particularidades.


A presença do caráter colecionista em sua personalidade e em seu trabalho se evidencia na coleção de brinquedos e no conjunto de signos recorrentes utilizados em toda a sua obra (ampulheta, símbolo do infinito, números, navio, escada, ponte, relógio, avião, farol, instrumentos musicais, átomo, vulcão, montanha, cadeira, bússola, torre, radar etc.). Delimitando todo esse trajeto, costurando todos os pontos, encontra-se a vida, o secreto, o particular, o romântico, que migrou de forma fluente e poética de seu cotidiano para sua produção artística.

Nesse processo de catalogação ou arquivamento do eu, o ‘’mundo’’ foi uma das metáforas mais utilizadas, assim como a geografia unida à topologia do corpo (mapas, globos, rios, caminhos, trajetos, artérias, vias, órgãos, cidades, desejos), que compõe uma espécie de cartografia do desejo. Dentro dessa investigação taxonômica do mundo, a palavra foi um dos agentes processuais mais legítimos e, por meio dela, foi composto um inventário regido pela identificação, observação e classificação.

A palavra se localiza em sua obra livremente, sem amarras, em alguns casos desobedecendo a regras de sintaxe ou gênero. O recurso gráfico por ele utilizado revela um caráter intermidiático, pois em suas construções ‘’poético-visuais’’ há um diálogo entre as artes visuais e a literatura, no qual a palavra e a imagem se conjugam numa estética semelhante àquela das histórias em quadrinhos.

Leonilson relata-se por meio das repetições – seja em uma narrativa voltada às questões sexuais, da idealização romântica e da busca pelo outro, nas metáforas ou nas metonímias do corpo, nas confidências alegóricas, seja na semântica iconográfica –, característica que atribui à sua obra uma estrutura circular. Em alguns momentos essa estrutura se encontra e se recria.

O processo autobiográfico colocado em sua produção revela um ‘’eu’’ carregado por um coletivo simbólico, em que tudo é motivo de sedução, lástima, desejo e vida. É nesse fluxo de poesia, na precisão do diálogo entre palavra e imagem, que o artista cria o seu jogo literário silencioso, que reverbera com mais intensidade em alguns escritos, mas que também habita com precisão os pequenos textos presentes em parte de seus trabalhos.

Os títulos são agentes desse processo literário; condensam uma narrativa íntima, forte, capaz de dizer muito com recursos mínimos e de atingir o outro pelo lirismo e pela simplicidade. A palavra integrada por um contexto poético-visual torna-se agente funcional da aproximação entre o artista e o espectador, atuando como ferramenta de acentuada cumplicidade, avizinhando e capturando, transformando de certa forma o público em testemunha de alegrias, tristezas, buscas, angústias e verdades."

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Identificação com seu "eu" ..."carregado por um coletivo simbólico, em que tudo é motivo de sedução, lástima, desejo e vida"...
Isso me faz questionar:

Será que no fundo, todo mundo é igual???

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