Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ode ao cagado trabalhador paulistano


Sexta feira chuvosa, trânsito, uma multidão nas ruas.
Trabalho pra fazer em casa, termina tudo bravamente, volta pra entregar e decide resolver as pendências burocráticas da recisão, não sem antes caminhar pelo tenebroso bairro da Santa Cecilia, coberto de nóias. Andar apressado para não ser assaltado, tampouco atropelado. Varrido pela loucura coletiva, o trabalhador registra seus livros, orgulho de sua vida esse dom!
Corre desembestado e chega a cinco minutos do fim do expediente: 15h55!!!
Preenche formulário, rubrica páginas e mais páginas.
- Trouxe a copia dos documentos?
- Sim, mas precisam de duas? Onde posso tirar cópia por aqui?
E a pressa responde:
- Faltam 3 minutos!!!
(ótima resposta...)

Nos três minutos finais, dois livros são registrados. Uma coisa a menos para resolver!
Ufa! Sobrou tempo! Atravessa o viaduto e pega o metrozão, rumo à Sé. Passeia relaxado pela estação, tenta se descontrair olhando uma exposição de aquarelas. Ao lado, a grande escultura de bronze é cercada por uma faixa branca com uma grande inscrição: "Não ultrapasse a faixa branca, ajude a preservar a obra". E qual não foi sua surpresa ao ver um camarada sentadão na arte de bronze...tem gente que não sabe ler, conclui. Mas, acho que tem gente que gosta mesmo é de "burlar" esse tipo de aviso.
Respeito que nada, esse é o povão.
Ao passar pela catraca o odor fecal invade o ambiente, sendo amenizado apenas pelo cheiro do chafariz de urina, respingando dentro da estação. Talvez alguns banheiros públicos resolvam essa situação...

Vida de trabalhador honesto, não é fácil não.
O cidadão corre pro Poupatempo solicitar o seguro-"desespero". Fila e minutos de espera, para ser avisado que a papelada não vale nada devidos aos erros de cadastro.

Cadastro e sistema, os culpados por tudo nesse mundão globalizado que insiste em não assumir a responsabilidade. A vida não pode seguir assim não!
Nada resolvido, mas alguns dias perdidos, sem dinheiro no bolso, a espera do trabalho alheio.
Como se não bastasse, a chuva aumenta, enquanto o guarda chuva descansa no armário. Espera de ônibus, sobe, desce, sobe em outro. As janelas fechadas concentram a catarrada da galera que tem medo de água. Tossida no cangote na sanfona do busão. Pobre cidadão vai pro fundão, pular feito cabrito, distante dos enfermos.
A visão privilegiada identifica uma cena um tanto comum: pessoas doidonas de tanto cheirar pó de unha de alguma mocinha vaidosa que não pôde esperar a hora da manicure.
Desce, e a caminho de casa encontra uma grande poça d´agua. Será que aquilo é uma ilhota? E o pézão afunda na água da construção. -Que nojo!!! Exclama inconformado, para seguir tendo uma crise de riso, lembrando do seu dia agitado.
Sum Paulu é assim mesmo, fede, irrita, sufoca, mas de tão trágica, chega a ser cômica.

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