Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Enquanto a tempestade tenta me matar, eu me apaixono pelo tornado

Publicada em 22/06/2011 no blog do Sunny!
http://sunnyboy8.webnode.com.br/


Domingo cinzento, nesta cidade cinza.
A cor que me desanima, absorve minha alegria. Estranho uma cor conseguir transformar sentimentos...
Quero ver outras cores, mas não o colorido das frutas na feira, nem o da TV.
Mergulho no guarda roupa e escolho uma blusa vermelha (cor mais intensa não existe), mas quero mais, então, tiro da gaveta o lenço de seda colorido para alegrar a cidade monocromática.
Caminho por horas, cercada pelas portas de ferro do comércio que não abre hoje. Atravesso a rua entre os carros pretos e prata, eles estão por toda parte.
Aperto o passo, procuro flores, mas elas fugiram desta estação.
Sem sol, sem vida.
Estou no meio do caminho para chegar à exposição dos domingos, onde há um pouco de tudo: trabalho, história, roupas, coleções e as tão necessárias cores...
Rajadas de vento tentam levar meu lenço, e só percebo o cinza escuro do céu. Antes mesmo de me assustar, a chuva começa.
Corro para me esconder, e meus passos aceleram o tempo, corro tanto que crio uma tempestade, mas não há abrigo.
O lenço de seda está grudado em minha pele agora, colorindo a carne branca. Talvez seja meu último desejo realizado, porque sei que a correnteza da água quer me afogar. Aqui, há duas quadras da exposição dominical... NÂO! Eu não sei nadar!
Preciso sair daqui. O vento, então, se enfurece, tentando competir com a tempestade e se transforma em força pura. Parei de correr. Já não sinto a água bater em meu corpo. Estou encantada com a força do vento, que agora se mostra cinzento também, e quer me levar para longe.
Meus pés já não tocam o chão. Entre o colorido e o vôo, penso eu, escolho aprender a voar.

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