Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Carrinhos bate-bate


Ligados na rede elétrica, deslizando por aí até atingirem um obstáculo, ou outro carrinho.
Nem sempre obedecem aos comandos do condutor, como se escolha própria tivessem.
Batem, voltam, tornam a bater e seguem.
Tentam seguir em frente sempre deslizando, o que quase nunca é possível.
Mudando a rota, novos caminhos são encontrados, novas paredes também.
Seguem tentando desviar, são desafiados, provocados, obrigados a colidirem, mesmo que não queiram.
Poderiam ser desligados, mas assim a brincadeira acabaria sem novos rumos.
Diferença alguma se nem pudem sair do quadrado que os envolvem.
Dentro da caixa, ligados ao fio.
E seguem.

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