Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fuga do deserto da águia patriótica

A águia foi impedida de voar mais alto por acreditar nas palavras confusas do deserto:
-Venha para cá! Aqui você poderá caçar a qualquer hora do dia e da noite, se assim preferir. Pode ser a dona de todas as regras que criar. Pode mandar, desmandar, mudar tudo de lugar. Só não poderá ser estampada em minha bandeira.
- Morar no deserto? Sua beleza me atrai, e muito. Suas formas, até mesmo sua criatividade, mas você não se move, nem mesmo o vento é capaz de alterar aos poucos seus contornos bem delineados. Preciso de uma companhia que voe comigo, não uma que só me veja voar.
- Aqui é seu lugar, você só precisa vir e tudo se resolverá. Mas não venha agora, porque estou me arrumando para te receber. Isso leva tempo, mas a decisão é sua.
A águia aprendeu com o deserto que ele gostaria de fugir de sua solidão, mas estava tão agarrado à ela, que não sabia mais agir. Ele não queria nem tentar.
Ela decidiu voar para longe daquela mesmice e pousou na árvore da alegria do seu coração.

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