Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

terça-feira, 26 de março de 2013

Sementes



Ali o vento passa, levando a poeira do luto,
Passa e arrasta pequenas sementes que poderiam se fixar na terra úmida
Já não sabemos do futuro, nem do agora, mas as raízes não crescerão, a menos que sejam cuidadosamente cultivadas.
Longe da ventania, a cidade segue sua rotina agitada
E afasta qualquer possibilidade de laço
Multidão vazia, peito aberto.
Só o vento dança entre nós
Empurrando os dias e levando as noites
Pra longe daqui.

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