Pablo Neruda

"Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta tive-a em meus braços,a minha alma não se contenta por havê-la perdido. Embora seja a última dor que ela me causa,e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A morte não santifica ninguém



   Diversos seres em um. Estados de vida que se alternam diversas vezes ao dia. Assim somos nós.
   Lutamos por nossos ideais, ou pelo que achamos correto e assim seguimos a vida fazendo o que acreditamos. Ora felizes, ora irritados. Estados que nos dominam tantas vezes, só melhoramos se nos conscientizamos de que tudo que nos ocorre têm um porquê, tudo pode ser uma grande oportunidade para transformarmos um comportamento ruim que insistimos em ter. Assim crescemos.
   Todos deixam uma lição, e muitas pessoas se destacam entre os amigos, que são os irmãos que não tiveram e acabam forjando sua grande obra entre eles. A morte não santifica ninguém, mas oferece aprendizado a quem fica. É isso que precisamos entender.
   Alguém que não nos inspira pode ter sido muito importante para alguém, ou para um grupo imenso de pessoas. Todos têm uma missão por aqui, porém, nem sempre o convívio familiar é o local onde executaremos essa missão.
   A religião une pessoas que temos que conhecer, e se a crença de um não é igual à do outro, essa também é uma oportunidade para aprendermos a lição mais importante da vida: respeito à vida.
   Lembremos-nos disso na próxima vez que começarmos a pensar que o que o outro fez em vida foi falso, hipócrita ou errado.
   Ninguém é totalmente errado a ponto de não deixar nenhuma lição de vida.
   Todos nós temos a capacidade de inspirar grupos, por menores que sejam. Sempre podemos levar a felicidade a alguém que já não têm esperança e fazê-la multiplicar. Esse é um dos estados de vida que todos temos: o Estado de Buda.
   Desperte a alegria e felicidade absoluta perdida em seu coração e recomece a cada dia.
   Refletir sobre o que fazemos, pensamos e falamos determinará o legado que deixaremos.
   Você também não acerta o tempo todo, não cobre isso do outro, menos ainda se a pessoa em questão já morreu.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O tempo e o nada



Certo dia, João percebeu que tinha o que tantos desejavam. Nada em excesso, mas o suficiente para viver dignamente e feliz. Oportunidades surgiam. Umas ele aproveitava, outras deixava passar. Não tinha a ver com aquela tal zona de conforto, isso é pra quem não quer arriscar, ele não tinha era vontade de fazer outra coisa. Estava tudo bem e isso bastava. As pessoas ao redor o invejavam por sua sorte, era assim que diziam: pessoa de sorte esse "Jão", tem tudo, tudo chega fácil pra ele. Ele fazia o que tinha vontade, lutava pelo que queria e era isso, nada demais, nenhum segredo, era o básico do básico. Sabia que tinha preguiça muitas vezes, sabia que poderia ser melhor, mas não sofria por passar por essas fases.

João percebeu que o que tinha estava perfeito. E era essa perfeição básica que o fazia ter certeza de que não tinha nada que não pudesse ser substituído.


domingo, 21 de abril de 2013

Vida interessante



 "Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida.
   Para os rotuladores de plantão, um bando de inconseqüentes. Ou artistas, o que dá no mesmo. Ter uma vida interessante não é prerrogativa de uma classe. É acessível a médicos, donas de casa, operadores de telemarketing, professoras, fiscais da Receita, ascensoristas. "

   Este, é um trecho do livro Doidas  e Santas de Martha Medeiros, que andou circulando pelas redes sociais recentemente. É ótimo porque é simples e diz tudo. Nos faz pensar em como não escrevemos isso antes se era exatamente o que queríamos falar? A simplicidade da escrita cutuca quem lê, a ponto de fazer questionar o quão interessante pode ser uma vida e o que se pode fazer para transformá-la.
   Minha nova queridinha. Busco mais inspiração em suas palavras justamente nesta fase "mente branca", preguiçosa e sem inspiração. Vida interessante é faser a vida de alguém interessante, mesmo que com um único parágrafo.


terça-feira, 16 de abril de 2013

Efeito Dumbledore



Estes dias, percebi a necessidade que temos em fantasiar. Talvez, seja uma lacuna que deva ser preenchida constantemente, que nos faz suportar a mesmice dos dias.
   Atos heroicos ou surreais, tudo é possível, até as ações mais mortíferas são facilmente superadas.
   E só me dei conta disso recentemente, quando finalmente comecei a  assistir a saga do bruxinho Potter. O curioso da história, para mim, é a criatividade da autora J.K.Rowling, que mesmo passando por um momento compliciado da vida decidiu colocar no papel toda as genialidade, aquela que não se apaga nem mesmo quando passamos por grandes dificuldades, e deu início a uma nova era da literatura infantil. Ganhou diversos prêmios, foi aclamado pela crítica e público e se tornou a primeira escritora milionária iniciante no mundo, não sem antes ter sua obra recusada por inúmeras editoras.
   Esse é um grande exemplo de que passar por dificuldades é tão natural quanto manter a criança interior presente por toda a vida, e é justamente essa alma criativa e sonhadora que nos faz seguir em frente, buscando superar os desafios e resolver as situações que nos fazem mal. Adulto de verdade é assim, eternamente conectado ao mundo do tudo é possível, onde transforma sua vida pouco a pouco e encanta lentamente todos que os rodeiam.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Presa na garganta



Acordei mais cedo que de costume devido à febre e a dor de garganta. À medida que os minutos passavam, os calafrios surgiam em intervalos cada vez menores e após muito refletir, decidi que o melhor a fazer era ir ao hospital tomar uma injeção. Francamente, trocar um dia de trabalho por uma benzetacil, era uma péssima escolha, porém, necessária.
   Com muito custo, saí da cama, avisei que não teria condições de trabalhar e fui ao pronto socorro. O diagnóstico foi rápido e preciso: infecção nas amígdalas. Oh! Nem imaginava! Ainda, tive a opção de escolher entre antibióticos orais ou aquela temida injeção. Fiquei com a segunda opção, tamanha a desgraça física em que me encontrava, mesmo sabendo que ganharia uma nova dor por mais alguns dias. Tortura concluída, voltei mancando para casa.
   Corpo quebrado, bunda doendo e sono chegando, agora sim, poderia repousar o resto do dia!
   Mal cheguei em casa e o telefone começou a tocar, pensei em não atender  já que precisava falar pouco, mas tinha certeza que era coisa rápida.
   -Alô? Oi vó, tudo bem? Quê? Mas o que aconteceu? Para de chorar e me conta. Ah, meu deus... eu tô doente vó, mas venha aqui em casa ficar com a gente até se acalmar, te buscamos naquele ponto de ônibus antes da Ricardo Jafet.
   E lá fui eu arrastando a perna,  atravessando a ponte de madeira podre da avenida para encontrar minha avó aos prantos.
   - O relógio do seu avô! Que burra que fui! (e chorava). Pensei que eles precisavam de ajuda para resgatar o prêmio do bilhete da loteria. O que é que eu fui fazer? Dei o relógio de ouro do seu avô... (e chorava mais um pouco).
   Finalmente entendi o que havia acontecido. Comecei a lembrar da correntinha  que esteve presa na calça do meu falecido avô desde que me conheço por gente. A corrente que seguia bolso adentro terminando num lindo relógio de ouro que era retirado poucas vezes ao dia. Era a herança que ele havia deixado. O objeto que mais representava o Sr. Castro, estava,naquele momento, nas mãos de um desconhecido, sabe-se lá onde.
   Minha avó era a culpa encarnada, não se perdoava por ter caído no golpe do bilhete premiado, jamais se perdoaria por tal deslize.
   A notícia correu e o telefone de casa se tornou a linha das lamentações. Eu e minha irmã, já havíamos escutado a tal história umas onze vez e nos solidarizamos em cada uma delas.  E assim, meus planos de repousar o resto do dia foram por água a baixo.
   Tv ligada e lanchinho para distrair a Dona Adria, eu sentada de lado porque minha perna inteira doía, os gatos assustados, minha irmã perdida no caos da sala e uma irritação começou a surgir em meu peito. O choro foi ficando mais baixo e passamos a ouvir uma outra voz vinda da rua, a trilha sonora começou a mudar.
   - Olha aí, olha aí freguesia, são as deliciosas pamonhas! Pamonhas fresquinhas pamonhas caseiras é o puro creme do milho verde. Temos pamonhas doce, pamonhas de sal, “souvete” e bolo de milho. Venha provar minha senhora, é uma delícia!
   Era só o que faltava, o carro da pamonha estacionado na pracinha, espalhando pelo bairro o tal texto obsessivo compulsivo. Não era possível que além de toda aquela “falação” em casa a voz daquela gralha da pamonha aumentasse pouco a pouco.
   Eu não merecia aquilo! Estava doente! Que falta de respeito!
   ... temos pamonhas doce, pamonhas de sal, “souvete” e bolo de milho. QUE DIABOS É UMA PAMONHA DE SAL???  É salgada sua idiota! Essa vaca não sabe falar a palavra SOR-VE-TE???
   Meu sangue fervia, mas logo o carro seguiria seu rumo e irritaria outras pessoas, ao menos era o que pensava.
   À medida que o som se aproximava, minha avó aumentava o volume do choro, eu o da televisão e o telefone continuava a tocar, alguns minutos enlouquecedores até o som ficar ensurdecedor. O carro da pamonha parou na minha porta!
   -Olha aí, olha aí freguesia, são as deliciosas pamonhas!
   Aquilo era demais para mim!!!  Esqueci toda a dor e o repouso das cordas vocais e saltei em direção ao portão.
   - Sua filha da puta! Enfia essas pamonhas no cú!!!!
   - O que? A senhora quer pamonha???
   Ao ouvir aquela pergunta estúpida, me agarrei ao portão trancado esperando que o cadeado estourasse com a minha fúria. Naquele momento, eu parecia um gorila enlouquecido numa jaula.
   Aos berros, acabei ameaçando a motorista do carro da pamonha,  por sorte, o portão não abriu, e logo o sedan vinho começou a se movimentar para buscar uma nova freguesia.
   E lá continuei, pensando que aquele ataque de fúria conseguiu ser pior que a dor de garganta e a benzetacil  e que jamais deveria ter saído da cama aquele dia.


sábado, 6 de abril de 2013

Arte obrigatória: suja a cidade que eu reciclo



Exato dia entre o Cavalete Parade e o primeiro turno das eleições para prefeito e vereador e ainda não escolhi o destino do meu voto. Pra falar a verdade, é nojento ser obrigada a votar diante de opções tão estúpidas, mas pior que isso, é saber que esta cidade será governada por um palhaços que se candidataram. Gostaria de votar só para vereador, naquele que vê também que os animais merecem respeito. Nada do top model descabelado do bairro que determinou que seus cavaletes devem me assustar a cada manhã em que viro a esquina de casa, muito menos no jornaleiro que nos atormenta gritando no dia das crianças por horas a fio e que durante o resto da ano cobra uma mísera impressão p&B R$2,00. Exatamente, dois reais por uma folha impressa. Com pequenos exemplos tão próximos, a escolha fica mais complicada.
   E que invenção é essa de espalhar cavaletes com cara de vagabundo pelas ruas? Não basta o monte de papel jogado na calçada, no jardim de casa, no meio da rua? Papel não incomodava o bastante, precisava ter mais lixo na rua. E ainda por cima "emoldurado" com tábua de estrado.
   Fico feliz por ter participado no último sábado do Cavalete Parade, onde cada pessoa retirou das ruas um cavalete de político, pintou e o expôs na Avenida Paulista. Obras lindas, intrigantes e simples que deixaram um recadinho para os porcalhões de plantão: suja a cidade que eu reciclo.
   A arte sim, deveria ser OBRIGATÓRIA. O voto não.